sábado, 3 de fevereiro de 2007

Modernidade

Catálogo de Erros
Cansaço. Um imenso cansaço. É esse sentimento, menos físico do que possa parecer, que me persegue ultimamente. Agitação. Tem dias, que a agitação não me permite fazer nada. Apatia em criança, hiperatividade doentia em adulto. Mas só nesses dias assim.

Não acredito mais no que dizem por aí. Porque diziam que, quando tivéssemos máquinas inteligentes, que fizessem parte ou todo nosso trabalho, máquinas mais eficientes que metade das gentes por aí, nosso tempo seria outro.

Nós estaríamos, se acreditássemos no que nos contaram, gastando o tempo em pescarias e divertidos encontros com amigos. Porque as máquinas estariam pagando nossas contas, pesquisando nossos trabalhos escolares, guardando nossos arquivos em um disco rígido invisível a nossos olhos, limpando toda a sujeira com um simples toque no botão.

Está tudo por aí e, dizem, algumas máquinas já começam mesmo a pensar – e, creio, muitas delas pensam mais do que um número considerável de pessoas. Mas o nosso tempo, aquele tempo livre, esse, não. Esse desapareceu.

Olho um tempo pra tela, outro tanto pela janela. Carros, seguranças, buzinas, pessoas apressadas, às vezes uma enxurradazinha sobre o canteiro central da avenida pra alterar um pouco a rotina. Sim, claro, das seis da manhã às oito horas da noite. Afinal temos que ser eficientes.

Na parte do tempo que olho pela janela, vejo o motorista de ônibus em atos tão autômatos quanto enfiar a mão na embalagem e levar um amendoim à boca. E ele faz isso todos os dias, no sol ou na chuva. Um desfile interminável de ônibus, carros, motos, caminhões. Não se pode parar. A perua do Sedex seguindo apressada - as pessoas têm pressa não da carta amiga, mas da encomenda valiosa.

O sol ainda alto por causa desse maldito horário de verão, felizmente escondido atrás de densas nuvens. Quem me dera o cinza permanente. Um pouco de umidade no ar pra combater a sequidão do espírito.

Acho que o Mundo deve toda sua gratidão a Freud, Jung e Anna O. Sem eles, ninguém jamais sobreviveria nos tempos de hoje. Recortar fragmentos de sonhos-pesadelos e transformar tudo em solução pra angústia desse século XXI. Esqueçam o inventor da lâmpada, do transplante, do avião, da morfina. Rendam todas as glórias à pequena pílula da felicidade.

Muitos estranharam quando a diretora do presídio deu um tiro no próprio ouvido. Eu, não.
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