terça-feira, 29 de maio de 2007

Fome, gula, vida

"Eu não sou uma magra infeliz? Então, agora, vou ser gorda e infeliz", dizia Júlia ao celular, enquanto aguardava o cheese-tudo no pit-dog. A conversa foi rápida e ríspida. O sanduíche, consumido com voracidade e desgosto. Estavam sendo dias difíceis.
Júlia sempre havia sido uma pessoa moderada, na alimentação e na vida. Folhas verdes, vegetais vermelhos e alaranjados sempre figuraram entre suas iguarias preferidas, ainda que insossas pudessem parecer a outros. De ser vivo, admitia apenas os que vinham da água - pequenos e com morte indolor.
Era um estágio inicial, antes de se tornar vegetariana por completo. "Estamos quase atingindo o nível evolutivo em que não vamos mais precisar nos alimentar de seres vivos", costumava dizer às amigas, diante da suculenta picanha.
Pra Júlia, comer envolvia uma certa filosofia. As refeições nunca podiam ser feitas às pressas. A fome abstrata, o alimento palpável. O ato de comer, mais do que uma necessidade biológica, era, pra ela, o próprio sentido da Criação. Tanto a comida, quanto seu resultado, eram os únicos elos entre as pessoas de todos os níveis sociais, todos os lugares do mundo. A fome e a saciedade eram as mesmas em gente e em bicho.
Mas teve um dia na vida de Júlia em que ela recebeu uma triste notícia. Um dia que ela preferia esquecer. As coisas deixaram de fazer sentido. Tanto cuidado com a vida, com as outras pessoas...
Júlia não bebia, mas passou a experimentar os doces, os acres, os amargos do álcool. Frango na cerveja, peixe ao vinho branco, filé ao conhaque. Seres vivos de todas as espécies. "Afinal, vegetais também não são seres vivos?". O médico havia mandado excluir os doces da dieta. Ou, ao menos, substituir o chocolate pelas frutas cristalizadas. Então, Júlia passou a consumir toneladas de doces cristalizados. "Ordens médicas", justificava.
O prazer e a comunhão que os alimentos selecionados traziam outrora foram substituídos pela letargia provocada pelas refeições exageradas. A sesta após o almoço passou de 15 minutos pra três, quatro, cinco horas. Os exercícios rotineiros, trocados por horas em frente à tevê. Sem ver nada, sem nada ouvir.
E Júlia foi ficando cada vez mais triste. Definhando. E comendo. O alvo, agora, eram as carnes exóticas. Novas vidas ceifadas na desenfreada busca do homem pela destruição do que não seja - ainda - ele próprio. O ódio a tudo em volta, a tudo em que havia o sopro no nariz de barro de Adão. Não havia mais pecado na vida de Júlia. Porque ela não tinha mais muito tempo. Mas Júlia não ficou gorda e triste. Permaneceu magra e infeliz. Porque a gula de Júlia era fome de viver.
PS: Publicado originalmente no Mimeographo, na série Sete Pecados Capitais
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