terça-feira, 15 de maio de 2007

A risada das hienas

Notas, impressões, versões e alguma verdade
Quase dois meses de salários atrasados. 70% dos vencimentos de fevereiro e a totalidade do salário de abril (o de março havia sido quitado) ainda não haviam sido pagos (e estavam sem previsão) quando um grupo grande, quase a totalidade de repórteres, fotógrafos e diagramadores do Diário da Manhã, o segundo principal de Goiás, decidiu fazer um protesto pacífico. Na sexta-feira, 11, a roupa preta manifestou, na Redação, a insatisfação dos jornalistas com a indiferença da empresa com os atrasos de salários, que vêm acorrendo desde o início do ano.
Não era apenas indiferença. Reuniões gerais coordenadas por diretores e segmentadas promovidas por editores com seus subordinados já haviam dado o recado: "Quem não estiver satisfeito com a situação, que peça demissão". Foi o que fizeram alguns. Nos últimos meses, 12 repórteres pediram desligamento do Diário. A maioria não recebeu, até agora, as verbas rescisórias.
Quando os diretores do jornal perceberam, na manhã da sexta-feira, o protesto silencioso na Redação, armaram uma reação que passou primeiro pela intimidação e depois pela tentativa de cooptação. O recado inicial foi para todos: "Quem estiver no movimento, pode assinar a demissão". Eram pouco mais de 30 profissionais. Como a quase totalidade manteve sua posição, passou-se à segunda parte da estratégia. Um a um, os profissionais foram chamados por seus chefes para se retratarem diante da diretoria do jornal, em troca do emprego de volta.
Poucos cederam, mas, entre esses, alguns envergonharam a categoria. Teve repórter que dias antes havia tentado iniciar uma greve, mas na hora do aperto negou que estivesse vestindo preto por causa do movimento. E pediu desculpas ao diretor geral do DM, Batista Custódio. Teve repórter que deixou a Redação por alguns minutos, passou em brechó (a falta de dinheiro não permitiu uma loja melhor) e comprou camisa colorida para negar a adesão ao preto do protesto. Teve repórter que fingiu ir de preto por acaso. Teve repórter que fingiu ir de colorido por acaso. (Entendo, apesar de não concordar, o fato de alguns não terem aderido à manifestação desde o início – cada um tem seus motivos).
Mas a pior de todas as demonstrações de submissão, a ponto de merecer este parágrafo independente dentro desse texto pobre mas indignado, foram os adesivos de "Eu amo o DM" que alguns repórteres, editores e diretores estamparam no peito. Alguns usaram dois adesivos. Outros deram um colorido à própria roupa preta que usavam "por acaso".
Enquanto a notícia do protesto pacífico, justo e silencioso se espalhava por outras redações de Goiânia, algumas hienas gargalhavam na Redação do Diário. Mas, não se enganem os que pensam que esses chefes estivessem realmente rindo de um suposto medo dos jornalistas de serem demitidos. Não era medo nem indiferença. Estavam, na verdade, disfarçando sua covardia e anuência com a situação humilhante a que os profissionais do jornal vinham sendo submetidos nos últimos meses.
Enquanto as hienas riam, de riso nervoso, tentavam esconder sua secreta inveja e admiração pelos jovens e antigos jornalistas do DM que tiveram coragem de não se submeter ao jugo de maus administradores e péssimos líderes. Enquanto as hienas riam, pensavam, secretamente, em como colocar o jornal nas bancas sem os 28 profissionais que acabavam de demitir. As hienas riam, no fundo, de vergonha de seus ex-colegas do próprio jornal e do restante da imprensa goiana e nacional.
Meus 28 amigos e colegas do DM. A atitude de vocês é um alento à profissão de jornalista e outras relacionadas. Revela que ainda há, antes mesmo da indignação, dignidade, ética e respeito a vocês mesmos. A posição firme, primeiro diante das ameaças e depois diante da tentativa de cooptação, revela que um profissional formado para combater as injustiças da sociedade não poderia compactuar com essas mesmas injustiças contra vocês mesmos.
Tenham certeza de que este fato será lembrado por muitos anos na imprensa goiana. Servirá para fazer com que estudantes de jornalismo (aqueles de que o DM tanto gosta) tenham um incentivo ainda maior para ingressar na profissão, vendo que nós, jornalistas profissionais, ainda temos vergonha na cara diante de tantos ataques patrocinados contra a profissão por grandes grupos empresariais, interessados em desarticular a categoria de olho na precarização das relações de trabalho. Mas servirá, principalmente, de aviso aos donos dessas mesmas empresas de que entre experientes e jovens jornalistas, ainda há quem prefira dormir com o aluguel atrasado, mas com a consciência tranqüila.
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