quarta-feira, 25 de julho de 2007

Passas e ervilhas

Catálogo de Erros
A distância de pouco mais de dois quilômetros era então intransponível praquele garoto de nove pra dez anos de idade. Da rua 5 no Morumbi à rua São Paulo no Parque Nelson Calixto, dois bairros nem tão distantes, mas em lados opostos na pequena cidade de, talvez, 70 mil habitantes, foram perdendo-se pedaços da pequena vida. Não no leve acidente do caminhão de mudança, que danificou alguns móveis e jogou fora a água do aquário. Mas no espaço daqueles poucos minutos que separaram dois mundos.

Para uma criança, ser tirada de seu mundo infantil quase pré-adolescente daquela maneira – por necessidades que só adultos entendiam – era tragédia das grandes, que nem o ano inteiro seguinte na mesma escola atenuaria. Pois era o mundo dos passeios de bicicleta na rua sem saída e do futebol com golzinhos de trave de tijolos no asfalto. Das desavenças de vizinhos, que os pequenos solenemente ignoravam na configuração das primeiras amizades. Era ali, na cumplicidade dos ataques à "Casa da Velha", que xingava e rasgava bolas de futebol caídas no quintal, que se delineavam as turmas, as primeiras simpatias e declarações de guerra.

Então, não havia como sair ileso desse cenário. Mas assim é a vida, vamos entendendo aos poucos. De perdas e ganhos. De encontros. E, essencialmente, de despedidas.

As tristezas provocadas pela mudança pra rua São Paulo foram superadas por outras. E assim, com momentos belos e íntimos, foi se configurando um novo caminho. Até a chegada a Londrina, em 1993, foram muitas chatices. Mas aí foram quatro anos de construção de uma nova personalidade, uma nova visão da vida. A convicção de que bastava correr atrás – às vezes, na frente. Exatamente por isso, não foi fácil o novo fim, com nova mudança.

Goiânia, no centro do país, era uma cidade perto de muitos lugares e longe de todos os outros onde foram se alojar (quase todas) as pessoas conhecidas. Mas havia a necessidade de ir, talvez pela fuga de apegos anteriores. Era pra ser um ano. Foram dez.

Na construção das novas amizades, construiu-se também um novo homem. Um homem-jornalista. Um homem-esperança. Um homem-cansaço. Um homem-tristeza. Mas, acima de tudo, um homem-inquieto – e que mistura adjetivos com substantivos abstratos.

Não há como descartar nem mesmo um minuto de uma vida, quanto mais dez anos. Uma cidade que se gosta, mas que não se reconhece como sua, não deixa de estar ali, assistindo, atuando. Uma cidade que se torna muito maior que ela mesma, graças aos tempos modernos, às webcams, blogs e skypes. E vai-se conhecendo mais gente que nunca se viu, através de bytes e chips, do que gente que está à nossa volta de verdade. E talvez só assim seja possível suportar a prisão do lugar-comum, do lugar em comum.

Uma nova mudança é sempre bem-vinda. Uma nova mudança pra velhos lugares, com velhos amigos, além dos novos, é sempre melhor. Uma Curitiba nova num velho Paraná. E tudo como se tivessem passado apenas alguns meses. Pois não foi mesmo outro dia que ela disse que detestava passas na maionese? E, se não me engano, não foi ainda agorinha que tiraram as ervilhas do cardápio, unicamente pra agradar esse velho amigo?

Há coisas que não se pagam. As pequenas gentilezas é uma delas. Um querer bem por querer. Pessoas sempre presentes. Há coisas que não se apagam.
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