quarta-feira, 19 de março de 2014

Gazeta pede desculpas por publicar artigo em defesa de um novo golpe militar

Não, você não leu errado. A Gazeta do Povo, hoje o principal jornal do Paraná - e que vem fazendo um belo trabalho, responsável e descolado de interesses partidários, como é muito comum na imprensa regional -, abriu espaço, ontem, para um "artigo" estarrecedor, assinado por umas tais Maria Araújo e Cristina Peviani em defesa de um novo golpe militar no Brasil. Sim, você, novamente, não leu errado.

As brilhantes articulistas defendem, por exemplo, "a destituição da presidente Dilma Rousseff e do vice-presidente Michel Temer; a dissolução do Congresso Nacional." Mais: "a dissolução de todos os partidos e organizações integrantes ou apoiadores do Foro de São Paulo; a intervenção em todos os governos estaduais e municipais e seus respectivos legislativos." Em seu devaneio defendem ainda "a intervenção no Supremo Tribunal Federal, no qual a presença de ministros simpáticos aos conspiradores é clara e evidente".

Não há muito o que dizer sobre tamanha estupidez, mas há o que dizer sobre a decisão de se publicar o artigo. Retomo um tema caro a qualquer um que lide com comunicação social: a liberdade de expressão. Recentemente, em debates e conversas com amigos e contatos virtuais, disse que liberdade de expressão não é uma questão absoluta. Referia-me à defesa da justiça por conta própria, em rede nacional, pela apresentadora Raquel Sheherazade, do SBT, que disse achar justificável a população agredir e humilhar um suspeito de roubo - veja bem, "suspeito". Poderia ser eu ou você.

A liberdade de expressão é, sim, um direito inalienável de qualquer cidadão. Desde que ele arque com as consequências do que diz, tem todo o direito de se manifestar em canais pessoais - blogs, sites, redes sociais. Já num veículo de comunicação sério, a coisa muda de figura. Há, por mais que se esperneie, uma coisa chamada responsabilidade social. E, nesse ponto, a liberdade de expressão é relativa, pois um veículo tem o dever de bem informar e não propagar assuntos que, apesar de ter seus adeptos, vai contra o bom senso e o bem estar do cidadão, para dizer o mínimo.

Quem defende a volta da ditadura militar é um completo analfabeto em história, além de esconder, ao que parece, um desejo mórbido pela morte e pela tortura, pois foram essas as maiores contribuições dos militares golpistas de 64. Preço que pagamos até hoje no comportamento de nossas polícias que, incompetentes para investigar, fizeram da tortura a principal estratégia de ação.

Enfim, não deixa de ser importante reconhecer o erro - fruto da vigilância dos leitores em tempos de redes sociais, pois, basta acessar a página do tal artigo para verificar a indignação dos comentários -, mas é preciso cuidado com o conceito de liberdade de expressão. Caso contrário, daqui a pouco vamos ler alguém defendendo as atrocidades de Hitler em nome de um direito constitucional.

PS: O pedido de desculpas da Gazeta está na seção de cartas da edição de hoje e, na versão on line, na mesma página do artigo publicado ontem.
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