terça-feira, 29 de março de 2016

Mea culpa de Lobão revela que a beligerância das redes sociais atinge todas as classes. E está na hora de parar




O pedido de perdão que Lobão escreveu para Gil, Chico e Caetano, visto como um recuo pela esquerda e como um cheque-mate pela direita, nada mais revela do que o óbvio: o comportamento visceral de pessoas sem capacidade de argumentação nas redes sociais também atinge os chamados formadores de opinião.

Se a ortografia da língua portuguesa já nos faz a todos cometermos nossos equívocos, a incapacidade argumentativa dos "milhões de imbecis" de Umberto Eco provoca uma tragédia social nunca antes vista na história do mundo - ainda que do mundo virtual. Idéias, propostas, argumentos, nada vale. De útil, na visão dos milhões de "neocientistas políticos" brasileiros, apenas a agressão.

Lobão é autor de obras primas. Na minha avaliação de fã, como música, Me Chama. Como disco, A Vida É Doce. A música brasileira não seria a mesma sem essas pérolas. Mas, como conjunto, não há comparações com a produção de Chico, Gil e Caetano.  Ainda assim, o roqueiro assumiu um papel importante no vazio argumentativo da vida moderna, em que mais vale um like numa postagem falsa - já que ninguém vai ler além da manchete - do que uma discussão séria sobre qualquer assunto.

Autor de frases como "pau no cu de deus", em uma antiga discussão estética com o maestro Júlio Medaglia no extinto Programa Livre do SBT, Lobão dirigiu sua verve sarcástica e agressiva nos últimos anos a questões políticas. E foi onde perdeu a mão.

Mas o fato é que, por experiência própria, o embate constante cansa, oprime, deprime. É preciso, em um momento ou outro, desarmar-se. Foi a conclusão a que chegou, tardiamente, Lobão. Apesar de nunca ter sido respondido nos mesmos termos agressivos pelos três pilares da MPB clássica, de ser uma voz com eco apenas nos setores mais radicais da sociedade, de sua imagem mais folclórica do que a de alguém a ser levado a sério, o velho lobo sentiu o peso da raiva, de sua própria raiva.

Ao contrário do que, em vão, tenta fazer agora, após a publicação da carta, provocando Gil, Chico e Caetano a emitirem uma resposta, Lobão nada mais quer do que o que realmente pediu: perdão pelas bobagens escritas e faladas ao longo dos últimos anos, potencializadas pela histeria e convulsão sociais recentes. Mais do que reassumir o papel de um dos porta-vozes da direita, Lobão quer, apenas e desesperadamente, ser levado a sério. Resta saber se ainda há tempo.
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