segunda-feira, 19 de março de 2007

Como poucos

Notas, impressões, versões e alguma verdade
Paulo Vilar, 64 anos, é ex-dirigente do PCB e ex-preso político. Foi personagem de reportagem no jornal O Popular desta segunda-feira por um comportamento pouco usual em tempos de reparações pelos desmandos e crimes praticados por militares e acobertados por civis fisiologistas durante a ditadura. Paulo Vilar decidiu não solicitar pensão do estado pelas prisões, torturas e perseguições durante o regime. Hoje aposentado, o ex-militante vive com menos de R$ 2 mil por mês.

Vilar é uma raridade. Atualmente, até mesmo quem nunca foi vítima nem mesmo de um olhar enviesado de um soldadinho qualquer recebe pensão pública, tanto da União como do próprio governo estadual, como é o caso de Goiás. É a desforra, a farra das indenizações.

Acho louváveis atitudes como a de Paulo Vilar. Hoje muitos pensionistas se assemelham aos beneficiados pelas bolsas-famílias espalhadas por esse Brasil afora. Não precisam mesmo da esmola-ditadura, mas não abrem mão de algumas centenas de reais a mais na conta bancária. É o país do estado-mãe. Mãezona, eu diria.

Apesar disso, não acho errado os perseguidos políticos – e os nem tanto - pleitearem suas indenizações. Um estado, uma sociedade que permite que um país tome os caminhos tortuosos que o Brasil tomou não tem nenhuma autoridade para criticar os que agora querem se beneficiar dos incômodos desse período obscuro, mesmo os pouco incomodados.
Os que realmente foram torturados, perderam empregos, tiveram parentes assassinados, evidentemente, têm o direito legítimo de exigir reparação. Já os que apenas sofreram pequenos constrangimentos, esses são a nossa desforra, a nossa vingança contra um estado outrora autoritário e sanguinolento. Tanto nós, sociedade em geral, quanto eles, militares órfãos da ditadura, sabemos que tudo não passa de uma farsa em busca do dinheiro fácil. E não podemos fazer nada.
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