sábado, 28 de abril de 2007

Minha Música dos anos 80: "Simoni, muito antes da Playboy"

Catálogo de Erros
Semana passada: A mocinha de piercing entre o queixo e o lábio inferior e cabelos coloridos aproxima-se da mesa distribuindo panfletos. Espero o anúncio de alguma festa maluca ou de um show de rock da pesada. Mas a mocinha convida mesmo pra um show de pagode.
Muita coisa mudou dos anos 80 pra cá. Panfleto, agora é flyer. Gente de piercing, agora é comum. E as mocinhas malucas andam freqüentando festas regadas a pagode.
Eu cresci em família evangélica, daquelas que não podiam ter rádio nem televisão. Não havia nenhum hábito musical em casa, a não ser os hinos da igreja (eu sempre pedia o mais curto, nos cultos infantis, aos domingos de manhã). Portanto, cada descoberta musical, da boa música, está gravada na memória. Os episódios são claros como as imagens que evocam determinados perfumes.
Há que se fazer justiça: Os discos do Balão Mágico estiveram presentes dentro de casa desde cedo, uma pequena desobediência ao cooperador (ou pastor). Eu sonhava com a Simoni, naquela época, bem mais do que com o chequinho de poupança da Caixa que veio junto com um de seus discos. Bem mais do que sonhei, talvez quem sabe, com suas recentes fotos ousadas. Era superfantástico ouvir aquela turminha: “Se enamora, quem vê você chegar com tantas cores, e vê você passar perto das flores...”. (Talvez tenha chorado escondido algumas vezes ao ouvir essa música).
Lembro-me de uma vez em que Sônia, moça bonita que tomou conta de mim enquanto pai e mãe trabalhavam, me deu de presente um compacto dos Menudos. Mas, naquele tempo, eu já desenvolvera o ódio aos grupos musicais pelos quais as coleguinhas nos trocavam sem pensar duas vezes. Pensando bem, sem pensar nem uma vez. Xuxa, Angélica, já não eram mais de minha época.
Foi o rock nacional que veio na seqüência. Era praia, Itanhaém, colônia de férias da polícia militar. E outra menina bonita apareceu cantando uma música meio falada, diferente de tudo o que eu já tinha ouvido. E, ao lado da mesa de ping-pong, desafiou, superior: “Faroeste Caboclo, Legião Urbana, conhece?”. Não conhecia. Mas a música nunca mais saiu da minha cabeça.
Era época em que ainda gravávamos fitas com nossas seleções musicais nas lojas de discos, por não ter dinheiro pros originais. Eram fitas, e não CDs piratas. E, de volta a Birigui, corri pra saber o que era essa tal Legião. Mas a minha lista de músicas não preenchia a cassete toda. “Com o que eu completo?”, queria saber o funcionário. “Completa com... com músicas... tipo...”. E ele, inteligente, matou a charada: “Rock Nacional”. E foi assim que fui apresentado a Titãs, Engenheiros (durante anos, minha banda preferida), Ira, Paralamas...
Pais e Filhos eu ouvi pela primeira vez durante a parada do ônibus na viagem entre Birigui e São Paulo. Ainda hoje tento definir o que foi o melhor: A música nova ou o sanduíche, que sempre aguardávamos ansiosamente durante essas viagens.
Eu sou suspeito pra falar da música dos anos 80. Primeiro, porque não entendo nada de música. Segundo, porque tudo daquela década foi bom pra mim. Cada coisa nova era uma descoberta pra vida toda. Hoje, parece que nada mais é novidade. Todo mundo tem acesso a tudo ao mesmo tempo. As pessoas baixam, sobem, invertem, fazem música no computador. Não há magia. Não há comentários ansiosos sobre a música nova da banda tal porque ela já está na internet antes mesmo do CD chegar às lojas. E, pior: Não existem bandas novas.
PS: Publicado originalmente no Mimeographo
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