terça-feira, 25 de setembro de 2007

Nem tão diferente assim

Quando Severino acordou do susto que tinha passado foi logo querendo furar a fila. Não sabia onde estava e nem onde ela o levaria, mas não iria ficar esperando. Na verdade, Severino não estava entendendo nadica de nada. A corrida de jegue, a torcida gritando, o jumento em disparada... Severino acordou pela segunda vez – agora, de seu devaneio - quando um sujeito alto, calvo, de óculos quadrados sem aro, com cara de turco barrou sua passagem. “Pra passar na frente, só molhando a minha mão”.

Entendendo cada vez menos, de volta ao final da fila, Severino começou a observar o lugar. Não parecia com nada que já tivesse visto, mas até que era bonito. “Será que estou sonhando que estou nas Europa?”, duvidou. Um saguão amplo, branquinho, e uma recepção lá no fundo, parecia um hotel. Nas paredes, separadas do piso por vãos de cerca de três metros da largura e que não permitiam ver o fundo, fotografias em molduras douradas de inúmeras pessoas. Algumas Severino até conhecia: “Paul Rabbit... não era aquele moço famoso, que sempre aparecia na televisão, um bruxo, cruz-credo?” Tititica... esse Severino conhecia muito, da televisão mesmo, o cabra até que tinha umas musiquinhas e piadinhas engraçadas, lembrava.

Severino agradeceu quando chegou sua vez de falar com o atendente. “Êpa, mas esse não é aquele amigo do presidente, que todo mundo reclamava que não atendia ninguém?”.

“Seu nome, senhor?”, quis saber o recepcionista, com um carregado sotaque caipira. “Severino da Silva”. “Caso ainda não tenha percebido, o senhor está no inferno. É pra cá que vêm os corruptos, os mentirosos, os corintianos, os vascaínos, os flamenguistas, os pagodeiros, os deputados da igreja Universional... ah, esses eu já falei no início, e um tanto de gente mais”.

Severino, que até agora achara que estava sonhando, pirou de vez. “Inferno? Mas pra estar aqui não tem que estar morto?” “Ahan”. “Mas eu não estou sonhando não?” “Não, o senhor morreu de acidente de jegue. Não lembra não? O bicho disparou depois que alguém ligou o som do carro numa música daqueles meninos lá, os dois filhos do Chico. Você caiu, bateu a cabeça, foi socorrido a tempo, mas, sabe como é, SUS...”.

Severino era meio lento, mas nem tanto: a ficha caiu. Só não entendia por que estava no inferno e não no céu. Sempre fizera tudo o que o saudoso pastor Vicente ensinara, desde menino. Não passava um domingo sequer sem visitar pelo menos vinte casas em busca de novos fiéis. Está certo que, quando era mal recebido – e isso nem era tão raro, especialmente no início da manhã – ficava com uma raivinha nada cristã, mas... Pelo menos, nunca tinha permitido uma transfusão ou mesmo doação de sangue. Era rígido com as regras. Caminhando pelo corredor, avistou alguém conhecido. “Pastor Vicente? É o senhor?” Mas o pastor, ocupado em mostrar a nova casa a outro grupo de moradores, nem respondeu.


PS: Publicado originalmente no Mimeographo, em 25/9/2005

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