terça-feira, 27 de março de 2007

Quer ver um jornalista corrupto? Dê a ele o poder

Notas, impressões, versões e alguma verdade
R$ 1.108,00. Esse é o valor do piso salarial dos jornalistas em Goiás. Acha pouco? Vendo anúncios de emprego em um blog encontrei ofertas de vagas com o majestoso salário de R$ 800,00 na cidade do Rio de Janeiro. Ou R$ 500,00 reais mais benefícios (oh!) em Santa Catarina.
A comparação mais acertada que vejo do jornalista é com o jogador de futebol: poucos ganham salários altíssimos – os jogadores ganham mais, claro – e a grande massa recebe minguados reais. De quem é a culpa? Das empresas de comunicação? Não, claro que não. Toda empresa quer pagar pouco, então por que as jornalísticas estão entre as que conseguem?
A culpa é do próprio jornalista. É ele que aceita um salário de pouco mais de mil reais se isso significar aparições diárias na tevê. Ou o afago de uma autoridade qualquer por uma matéria em um jornaleco desses que se vendem a governos, qualquer governo.
O grande problema é que o jornalista não se considera integrante de uma categoria. Pensa e age como se fosse um profissional liberal – e olha que mesmo os profissionais liberais têm sindicatos e associações pra defender seus interesses. O jornalista, não: é auto-suficiente.
O resultado é uma categoria absolutamente desmoralizada, desprezada pelas empresas empregadoras e muito mal paga. O sindicato é visto como inimigo ou desnecessário e essa visão apenas reforça a inércia kafkiana com que muitas dessas instituições realmente operam.
A grande verdade é que os jornalistas estão cada vez mais integrando duas categorias: a dos deslumbrados, que crêem não precisar de nada nem ninguém, e a dos espertalhões, que usam de sua profissão pra obter vantagens – algo como aquilo que sempre criticamos nos políticos, sabe? Eu, particularmente, estou na categoria dos decepcionados.
Claro, não se trata aqui de desmerecer a profissão. O que seria do Brasil sem a vigilância da imprensa? Mas temos que tomar muito cuidado com os rumos que estamos tomando. Até porque, todas as profissões, de certa forma, refletem o extrato da sociedade e a sociedade brasileira ainda é filosoficamente estruturada sobre os pilares da Lei de Gerson. Onde há espaço, nossa esperteza se manifesta.
Alguma dúvida? E aquele jeitinho de furar a fila do banco? E fazer seu pedido no balcão da lanchonete antes da pessoa ao seu lado que já estava lá, mas o atendente não viu? E o sinal vermelho solenemente ignorado? E a amistosa conversa com o policial que, de repente, desiste de te aplicar aquela multa? E o telefonema pra autoridade tal, direto do jornal A ou da TV B, pra quebrar aquele galho?, afinal, somos jornalistas...
Somos, ainda, uma sociedade torta. Em evolução, mas torta. O político corrupto nada mais é do que o balconista honesto que não conseguiu se eleger. Basta dar os meios que nós mostraremos nossas garras. E o jornalismo, em menor escala, também proporciona isso. Portanto, colegas, vamos assumir nossa responsabilidade de valorizar a profissão. Todos sabemos quem são os espertalhões, ainda mais agora com essa lambança dos registros precários, que caem, voltam, caem de novo e voltam novamente.
Que tal descermos do salto e assumir que somos profissionais como outros quaisquer?
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