quarta-feira, 26 de abril de 2017

Paraná resgata vítima de tráfico humano: "Eu tinha medo de morrer. Eu tava vendo que não ia conseguir mais fugir"

“Eles queriam me obrigar a colocar um silicone maior nos seios. Um silicone que é injetável, sem anestesia, e isso nem é permitido. Eu tinha medo de morrer. Eu tava vendo que não ia conseguir mais fugir”. O relato cheio de medo é de Valéria*, transexual, 22 anos. Ela saiu do interior do nordeste com a promessa de que teria uma vida melhor no interior do Paraná. “Eu sabia que continuaria fazendo programa. Ninguém me enganou quanto a isso. Eu ganho a vida assim desde os 17 anos. Mas não imaginava que seria nas condições em que encontrei” revela.

Números preocupam (Foto: Divulgação)
Era 07 de março quando Valéria entrou pela primeira vez num avião. A passagem foi comprada pela aliciadora que se apresentava como Bruna Marquezine. Foi de carro até Recife onde passou a noite num hotel e embarcou na manhã seguinte para São Paulo. “ Ela pagou tudo e me dizia o tempo todo que eu conseguiria tirar até mil reais por dia de trabalho, que teria alguns custos, mas que ganharia bem mais do que ganhava me prostituindo na minha cidade. Eu não tenho família. Resolvi arriscar a sorte”.


EXPLORAÇÃO - No destino, a decepção. “Cheguei numa casa precária. Uma sujeira, goteira, várias outras meninas. Era vigiada o tempo todo. Tive a ideia, a iluminação de esconder o meu celular e foi o que me salvou”.

Na casa, outras 20 meninas, de diversos Estados do Brasil, dividiam o espaço. Tudo que era consumido era pago. Valéria chegou e já tinha uma dívida de dois mil reais. Tinha que trabalhar das 16 horas da tarde até o outro dia pela manhã. “Se não chegasse com 250 reais em casa eles mandavam a gente voltar pra rua”. Na conta, eram necessários cinco programas por noite para chegar à quantia. “Não tem quem aguente”, confessa ela.


Valéria disse várias vezes que queria voltar pra casa. A resposta era sempre a mesma: só depois que a dívida for paga. “Como eu ia pagar essa dívida? Ela aumentava a cada dia. Se tomava um copo de água tinha que pagar dois reais. Se tomava um banho, quinze reais. Isso me desesperava”.


Na primeira semana Valéria planejou como conseguiria internet para se comunicar com alguém lá de onde tinha vindo. “Fiquei matutando como teria dinheiro pra colocar crédito no celular e mandar uma mensagem pra alguém”. No dia 16 de março, “correndo riscos”, como ela diz, conseguiu entrar em contato com uma pessoa que milita na causa LGBT.


No mesmo dia o Núcleo de Enfrentamento o Tráfico de pessoas do Paraná recebeu uma denúncia de que havia uma suposta situação de tráfico de pessoas no interior do estado. O Secretário da Justiça, Trabalho e Direitos Humanos, Artagão Júnior, acionou a Polícia Civil, a Polícia Federal e o Ministério Público.
“É um trabalho delicado, envolve investigação, vários órgãos precisam agir para conseguir libertar uma pessoa de uma situação dessas. Nossa atuação foi o mais rápida possível. Mas pra quem está passando por uma situação de cárcere privado, com vários direitos violados, qualquer espera é uma eternidade”, comentou Artagão Júnior.


No dia 04 de abril Valéria embarcou para o nordeste. Ela saiu uma tarde para fazer programa e foi resgatada pelo Ministério Público, que providenciou imediatamente abrigo e alimentação à vítima.


DENÚNCIAS - Só este ano, o Núcleo de Enfrentamento ao Tráfico de Pessoas do Paraná já recebeu 25 notificações de casos de pessoas traficadas. Em todo ano passado, foram 10 denúncias. O aumento no número de casos é resultado da Campanha Coração Azul promovida pela Secretaria da Justiça, Trabalho e Direitos Humanos para estimular as delações. Prédios públicos foram iluminados de azul, seminários foram promovidos, além da distribuição de materiais educativos e blitze educativas, tudo para sensibilizar a população para contribuir com a causa.

“O que chama a atenção é a vulnerabilidade comum às vítimas. Todas as pessoas que acabam traficadas estão em busca de algo melhor. A ânsia de mudar de vida, de fugir de uma realidade, de ter uma oportunidade melhor, cega a pessoa e ela se torna uma vítima. Existem grupos, fortemente esquematizados, que se aproveitam dessa fragilidade, muitas vezes momentânea, para explorar, traficar, lucrar em cima de uma pessoa”, alerta Silvia Cristina Xavier, Coordenadora do Núcleo.


INVESTIGAÇÃO - O Ministério Público e o Gaeco investigam o caso. A aliciadora, que mora no Nordeste, também foi denunciada à polícia  e está sob investigação.

Quem se deparar com casos suspeitos de tráfico de pessoas pode denunciar pelo telefone 181.


*Nome fictício

Fonte: Secretaria de Justiça
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