quinta-feira, 22 de março de 2007

Visões

Notas, impressões, versões e alguma verdade
O vidente Juscelino Nóbrega da Luz declarou ontem, no Jornal da Massa, o sofrível novo programa do Ratinho, que um avião cairá em outubro, em São Paulo, podendo causar a morte de mais de 200 pessoas. Avisos como esse Juscelino diz receber em forma de sonho, com uma voz grave, chamada por ele de "Mentor", narrando o futuro acontecimento. São cerca de nove visões por noite.
Sou cético. Até que provem o contrário. Aí, acredito pra valer. Então vou esperar outubro, torcendo para que o vidente seja um blefe. Juscelino costuma enviar cartas para as pessoas que julga ter o dever de avisar do que vai acontecer ou esclarecer sobre algo já ocorrido. A mãe de uma garota que teria se jogado de um prédio recebeu uma carta dizendo que a filha foi, na verdade, atirada do décimo andar por alguém - a reportagem é inconclusiva, mas dá a entender que a polícia não acredita em homicídio.
Outros casos são um pouco mais difíceis de acreditar. Juscelino Nóbrega diz ter enviado carta ao presidente Bush indicando o esconderijo de Sadam Houssein. Também teria previsto o ataque às torres gêmeas e o tsunami na Ásia. Pra não deixar dúvidas, registra as previões em cartório com antecedência. Mais uma vez a reportagem não deixa claro se comprovou alguma delas.
Entrevistado, padre Kevedo foi taxativo: "ou é um louco ou um sem-vergonha". Entre os descrentes - creio não ser o caso do padre - há uma teoria, a Teoria dos Grandes Números. Não conheço detalhes, mas em linhas gerais afirma que milhares de pessoas no mundo todo podem, em determinado momento, por exemplo, sonhar com um desastre aéreo. Entre essas milhares, apenas uma confirma a "previsão", porque acidentes aéreos podem ocorrer a qualquer hora e, coincidentemente, um deles ocorreu naquele lugar. Eu prefiro acreditar nisso.
Como disse, sou cético até que provem o contrário. E uma vez ocorreu algo estranho. Após o vestibular fui informado por telefone que não havia sido aprovado. Minha avó, evangélica, disse ter tido uma visão de um anjo ou algo parecido, dizendo que eu havia ficado em 11° lugar, entre 20 aprovados. No dia seguinte, motivado pelas contas e pontuação refeitas, liguei de novo na universidade: sim, estava aprovado.
Semanas depois, já em Londrina, recebo o aviso por telefone: o cartão de desempenho havia chegado e realmente eu estava em 11° lugar. Será que a Teoria dos Grandes Números poderia explicar? Algo genérico como um acidente aéreo se encaixa muito bem. Mas quantas avós sonharam naquele dia que o neto havia passado no vestibular, acertando sua colocação?
Por via das dúvidas, nada de avião em outubro. E espero me lembrar disso.
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