terça-feira, 20 de janeiro de 2026

Após ser desmentido pela Anvisa, bolsonarista Marcelo Bella deixa empresas de suplementos alimentares

(F: Divulgação)
Em comunicado enviado à imprensa, o empresário Marcelo Bella, dono da famosa marca de suplementos alimentares Black Skull, anunciou a venda de suas cotas e ações nas sociedades GDS–Grow Dietary Supplements USA Labs LLC, nos Estados Unidos, e GDS–Grow Dietary Supplements do Brasil S/A, "decisão tomada em comum acordo com seus sócios". O material também afirma que ele, agora, comandará a Abenutri (Associação Brasileira das Empresas de Produtos Nutricionais), criada em 2000, de forma independente, "atendendo a uma antiga demanda do setor por uma liderança desvinculada de marcas específicas". O texto ressalta, ainda, o protagonismo "emblemático" do empresário no setor. “Depois de 43 anos dedicados a este mercado, encerro um ciclo importante da minha vida para começar outro, com a mesma paixão, mas em um novo formato”, afirma o executivo no comunicado.

Pois bem, vamos aos fatos:

Marcelo Bella começou a ficar conhecido fora do mundo do fisiculturismo em 2021, durante o governo do agora presidiário Jair Bolsonaro (PL), ao organizar o evento Acelera para Cristo, em São Paulo, onde alegou ter atingido o recorde de 1.324.523 motocicletas, um recorde que teria sido reconhecido pelo Guinness Book. Como é muito comum entre bolsonaristas, a publicação desmentiu o título e deixou claro que não há categoria no Guinness para eventos políticos. Por sua vez, a Secretaria de Segurança Pública de São Paulo (SSP) calculou a presença de apenas 12 mil motocicletas no ato, menos de 1% do anunciado. Além do próprio Bolsonaro, também estiveram presentes na motociata a também presidiária e deputada federal cassada Carla Zambelli (PL), o ex-ministro do Meio Ambiente Ricardo Salles (Novo) e o astronauta Marcos Pontes (PL), que desfilou na garupa de Bella. Tudo isso, relembre-se, em plena pandemia de covid-19, doença minimizada pelo bolsonarismo, que matou ao menos 700 mil brasileiros.

Liderança de sucesso

"A carreira de Marcelo Bella teve início em 1982 e acompanha, de forma direta, o desenvolvimento do mercado brasileiro de suplementos alimentares. Ao longo de mais de quatro décadas, atuou como atleta, treinador, executivo, empreendedor e articulador institucional, acumulando projetos pioneiros que ajudaram a moldar o setor no país", diz o comunicado enviado pela assessoria do empresário. 

"Entre os marcos de sua trajetória estão o apoio ao piloto Ayrton Senna em 1987; (...) a organização de eventos com grandes nomes do fisiculturismo mundial, como Ronnie Coleman, e a articulação que viabilizou a chegada do Arnold Classic ao Brasil, consolidando o país no calendário global do esporte e da indústria fitness", continua o texto.

"A partir de agora, Marcelo Bella passa a atuar de forma independente no mercado, com foco em projetos pessoais, científicos, sociais e institucionais, além da defesa de pilares como ética, saúde, segurança e eficiência na indústria de suplementos e matérias-primas", diz, ainda, o comunicado.

Mas, engana-se quem acredita no altruísmo empresarial de Bella. Não vou contar tudo aqui porque a revista piauí detalhou tudo em uma bela reportagem - perdoem o necessário trocadilho - publicada em 24 de julho do ano passado.

Mas resumo:

Em setembro de 2024, o advogado Erick Marques, representante da Abenutri (que, vejam só, é completamente dominada por parentes e funcionários de Bella - agora, ex-funcionários), detalha a revista, contatou e afirmou à Secretaria Nacional do Consumidor, órgão do Ministério da Justiça e Segurança Pública, que a entidade tinha elaborado laudos que indicavam irregularidades em 48 marcas de whey pretein concorrentes da Black Skull. Afirmou ainda, revela a piauí, que os laudos tinham aval da Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária).

Não preciso dizer aqui o terremoto que foi no mercado, com as marcas concorrentes tendo sua venda proibida e taxadas de irregulares. Mas a reviravolta veio logo. O tal laudo da Abenutri havia sido produzido sem qualquer conhecimento da Anvisa e realizado nos laboratórios da UniEvangélica (ah, não diga), grupo educacional sediado em Anápolis e que ganhou status de universidade em 2021, no governo de quem?

Outros dois "detalhes": não houve contraprova ou possibilidade de defesa das marcas citadas. E um dos pesquisadores da UniEvangélica, Rodolfo de Paula Vieira, revela a reportagem, é integrante da Abenutri. Ora, ora, ora... quem diria, não?

"Seguiremos trabalhando pelo fortalecimento, credibilidade e sustentabilidade do mercado”, afirma Marcelo Bella. "De um menino aprendiz a um profissional realizado, sigo acreditando que sonhar, aprender e evoluir nunca saem de moda. Termino um ciclo para começar outro”, conclui o empresário. 

Quem sabe, não? Sempre é tempo de evoluir. E, talvez, esquecer mais alguns fatos revelados pela piauí, com os quais concluo: em junho de 2025, o juiz Wellington Urbano Marinho, do Juizado Especial Cível e Criminal de Caçapava (SP), condenou Bella a um mês e dez dias de detenção, em regime aberto, por ameaçar "cortar a cabeça" do concorrente Laert Giovanelli Santos, da Mrs Taste. Na Justiça do Trabalho de São Paulo, ainda segundo a publicação, um dos processos a que Bella responde diz que ele espalhou na empresa que um funcionário era soropositivo. Já a NSF, entidade internacional de certificação de produtos, acusou a Black Skull de utilizar indevidamente seu selo de qualidade em seus produtos.

Enfim, o roteiro de cidadão de bem, da tradicional família brasileira cristã, não surpreende mais ninguém. Mas sempre é tempo de se mudar a trajetória.

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