quarta-feira, 14 de março de 2007

Xeque-mate

Catálogo de Erros
“Qualquer coisa que se sinta. Têm tantos sentimentos, deve ter algum que sirva”. Arnaldo Antunes
Na estante contemplo troféus e medalhas. Uma vida inteira de conquistas. Décadas de vitórias. Reconhecimento. Mas o que eu preciso é de uma sensação. Uma, apenas. Preciso sentir alguma coisa, nem que o mau cheiro do banheiro. Caminhões transportando peles recém-tiradas de animais recém-vivos. Nós, recém-vivos. E achando que sabemos de tudo. Caminhões de ossos com restos de vida cruzando a estrada, bem na sua frente.
Trago heranças genéticas de séculos, milênios. E posso ser aqui hoje o descendente legítimo do maior benfeitor ou do bandido sanguinário de outrora. A herança genética é a única da qual não podemos duvidar. Por isso, nosso quê de maldade atravessa os tempos e permanece sempre conosco.
Porque só toleramos o próximo e seus interesses pela força moral, da crença ou das instituições. Mas se agíssemos como agiríamos sem limites impostos por severas penas, não hesitaríamos em eliminar nosso adversário. Eu agiria assim, raivoso e sem culpa.
Não sinto mais culpa. Meus crimes são todos justificáveis pela crueldade, mau-caratismo e inércia que combato com a força de raios e vulcões. Quem dera um rio de lava lavasse pra sempre resquícios de falsa moral cristã. A destruição do adversário – mesmo que ele seja você – é a única tarefa que justifica nossa passagem de ida sem reserva de volta.
Há uma técnica que acaba com a dor. Pra sempre. Os médicos não a utilizam porque talvez acabe com o ódio também, que é sentimento. Não seria proveitoso. Porque estaria eu hoje aqui achando tudo normal, esse paradeiro, esse Parador, esse lugar qualquer que seja o mesmo. E não é o caso, porque eu não ando nada satisfeito.
Penso em Clichy, em Montmartre, em Marússia, mas permaneço no Brooklin. Ora, de que vale isso? Ok, eu confesso, tenho um profundo pavor do fracasso e do esquecimento. Não esse de agora, mas aquele cruel, de quando isso nos faz diferença pelo peso dos anos e das decepções.
Há um momento no xadrez em que não há saída. A menos que se invente um novo jogo. Ou uma nova regra pro jogo que já existe, mas isso é ainda mais complicado. Porque o que já está aí, não gostam muito de mudar. Seria preciso um pouco mais de insanidades e suspenses.
Eu jamais seria capaz de pensar um pensamento sequer se estivesse em sã consciência. Mas também não seria capaz de expressar qualquer idéia que fosse, mesmo que a cor da camiseta, se não me mantivesse sóbrio. Ainda que sóbrio de sentimentos ou confianças.
Sempre existe alguém que tem o que a gente quer. E o que a gente quer está sempre com alguém. Eu sei, por exemplo, que aquela japonesinha da tevê carrega em suas tatuagens e piercings toda a minha rebeldia de anos antes. Aquele cowboy de chapéu largo leva na fina bota o chute na canela que eu gostaria de ter dado. Aquela moça da faculdade conduz naquela mochila cinza-jeans algumas anotações que eu fiz. Era meu roteiro de vida que sumiu. E aquele senhor triste no caixa da padaria esconde na carteira de couro surrada esboços de um projeto inteiro de vida.
Mas, tudo bem. Eu posso fazer outro.
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