domingo, 15 de março de 2026

O Agente Secreto: sem Oscar, mas com moda brasileira no tapete vermelho

Alice Carvalho no Oscar (Reprodução Redes Sociais)
O Agente Secreto não levou o Oscar. Particularmente, a despeito da maravilha que é o filme, era de se esperar. Difícil um país fora do eixo das grandes produções cinematográficas levar a premiação - seja em qual categoria fosse - em duas edições seguidas. Mas a moda brasileira teve seu momento de destaque na cerimônia. A atriz Alice Carvalho, integrante do elenco do filme, indicado a quatro estatuetas, compareceu à cerimônia com um vestido criado pela marca amazônica Normando, confeccionado a partir de fibras naturais de malva e juta produzidas pela Companhia Têxtil de Castanhal, maior produtora dessas matérias-primas nas Américas. A peça leva para um dos eventos mais prestigiados do cinema mundial não apenas a estética contemporânea da moda brasileira, mas também uma história de sustentabilidade e valorização da bioeconomia.

Com estrutura inspirada em um blazer — ombros marcados e bolsos, códigos característicos da estética da Normando — o vestido tem construção de alfaiataria e acabamento todo alinhavado à mão. A parte inferior se abre em uma silhueta fluida, próxima ao formato sereia. Para garantir conforto e usabilidade, os estilistas aplicaram um forro de algodão por termocolagem, reforçando o compromisso da marca com peças que unem design e funcionalidade. “Trabalhamos com as fibras da Castanhal no nosso dia a dia. Já apresentamos peças feitas com elas na São Paulo Fashion Week e no Baile da Vogue. O vestido mistura malva e juta e foi pensado para ser confortável, com atenção à ergonomia e ao toque na pele”, explica Emídio Contente, diretor criativo da Normando.

Nativa da Amazônia, a malva é uma fibra natural, leve e resistente, assim como a juta, que foi levada à região por imigrantes japoneses, na década de 1930. Comumente usadas em sacarias (como as que levam a marca Cafés do Brasil) e embalagens sustentáveis, ambas ganham protagonismo na moda feita pela Normando. “Em um mundo em que quase todos os modelos já foram criados, a matéria-prima é o que existe de mais inovador. E não há nada mais tecnológico do que a floresta, com a tecnologia da natureza, da semente e da mão humana”, afirma Marco Normando, diretor criativo da marca. Segundo ele, levar um vestido feito com fibras amazônicas ao tapete vermelho do Oscar é uma forma de reposicionar o olhar internacional sobre a região. “Queremos mostrar uma Amazônia contemporânea, de tecnologia, cultura e diversidade, longe de estereótipos.”

“Estar na origem de um vestido no Oscar coloca não só as fibras brasileiras, mas toda a sua cadeia produtiva, em um outro patamar. É um momento importante de valorização dos pequenos produtores de malva da Amazônia”, afirma Flávio Smith, diretor-executivo da Castanhal.

A presença da empresa nessa criação reforça a importância da cadeia produtiva sustentável das fibras amazônicas. Há 60 anos, a companhia transforma juta e malva cultivadas em áreas de várzea em fios, telas e tecidos utilizados por diferentes setores da indústria. O cultivo, diz a marca, segue o ciclo natural das chuvas e dos rios amazônicos, sem irrigação artificial, adubação química ou desmatamento. Toda essa cadeia da fibra remove mais gás carbônico (CO²) da atmosfera do que emite, o que caracteriza uma operação carbono negativo.

O modelo produtivo também tem forte impacto social. A empresa mantém parceria com comunidades ribeirinhas, oferecendo assistência técnica, fornecimento de sementes e compra garantida da produção com preço previamente acordado, o que gera renda mais estável para centenas de famílias. Toda a cadeia é rastreável, do plantio até a transformação da fibra, e auditada por organismos certificadores independentes, assegurando critérios de manejo ambiental e condições éticas de trabalho.

Além da dimensão ambiental e social, as fibras amazônicas oferecem características valorizadas pela moda contemporânea: são biodegradáveis, resistentes e possuem estética natural versátil. Para Emídio Contente, essa conexão entre tradição e inovação também é pessoal. “A malva sempre esteve presente no cotidiano do interior do Pará. As crianças brincam com ela, fazem cabelo de boneca. Minha avó fazia bolsas de juta para vender. Trabalhar com essas fibras é também uma forma de honrar essa memória.”

Ao vestir Alice Carvalho no Oscar, a Normando e a Castanhal transformam o tapete vermelho em uma vitrine para a moda brasileira e para o potencial criativo da Amazônia, onde design e sustentabilidade caminham lado a lado. “Levar esse vestido ao Oscar é colocar o Brasil, junto com nosso cinema, onde ele merece estar, com a Amazônia em evidência”, celebram os designers.

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